A fazenda Santa Rita ficava no meio do nada, em Minas Gerais. Terra vermelha, céu azul sem fim, gado pastando, o cheiro de capim molhado e o som dos pássaros ao amanhecer. Era o tipo de lugar onde o tempo parecia andar devagar, e os segredos demoravam a chegar.
O Júlio trabalhava na fazenda desde os 18 anos. Agora com 32, ele era o peão mais confiável do patrão, o Seu Eustáquio. Um homem de 60 anos, viúvo, durão, que tratava os funcionários com respeito, mas sem rodeios. O Júlio era forte, alto, com a pele queimada de sol, as mãos calejadas de tanto lidar com arame farpado e o gado. Cabelo preto, olhos castanhos, um sorriso de poucos dentes mas cheio de charme.
O filho do patrão, o Henrique, tinha 22 anos, morava em Belo Horizonte e vinha passar as férias na fazenda. Um rapaz magro, de pele clara, cabelo alisado, óculos de grau, jeito de quem passava mais tempo na biblioteca do que no pasto. Estudava veterinária na faculdade e, nas férias, ajudava o pai com os animais.
O Júlio sempre achou o Henrique bonito. Mas era o filho do patrão. Tinha limite.
Até que um dia, o limite foi testado.
O sol tava a pino quando o Júlio voltou do pasto. Suado, o corpo coberto de poeira, a camisa regata grudada na pele. Ele foi até o curral, onde o Henrique tava tentando aplicar uma injeção numa vaca.
— E aí, doutor? — o Júlio chamou, com um sorriso. — Tá precisando de ajuda?
Henrique se virou, os olhos encontrando o corpo suado do peão.
— Tô — ele respondeu, a voz um pouco trêmula. — Essa vaca não para quieta.
O Júlio se aproximou, segurou a vaca pelo cangaço, e a manteve imóvel.
— Pode aplicar.
Henrique aplicou a injeção, as mãos tremendo. Quando terminou, os dois se olharam.
— Obrigado — Henrique disse, a voz mais baixa.
— De nada, doutor.
O Júlio soltou a vaca e ficou parado, olhando para o Henrique. O rapaz estava com o rosto vermelho, o suor escorrendo pela testa.
— O senhor… — Henrique começou.
— Me chama de Júlio — o peão interrompeu. — Não fica com essa de senhor não.
Henrique engoliu em seco.
— Júlio… você quer tomar um banho lá em casa? A água do chuveiro é melhor que a do seu barraco.
O Júlio sentiu o corpo esquentar.
— O patrão não vai gostar.
— Ele não vai saber.
O Júlio pensou por um segundo. Depois, assentiu.
Os dois foram até a casa grande, um casarão de fazenda com varanda, piso de madeira, e um cheiro de café e mato. O Henrique levou o Júlio para o banheiro, que era enorme, com piso de azulejo e chuveiro elétrico.
— Toma — Henrique disse, entregando uma toalha. — Depois, a gente conversa.
O Júlio tomou banho. A água quente aliviou os músculos doloridos. Quando saiu, enrolado na toalha, o Henrique estava sentado na beira da cama.
— Senta — ele pediu.
O Júlio sentou na cama, a toalha ainda enrolada na cintura.
— Você é lindo, Júlio — Henrique disse, a voz saindo baixa.
— Doutor…
— Henrique. Me chama de Henrique.
Os dois se olharam. Henrique colocou a mão no peito do Júlio.
— Eu quero você.
O Júlio não respondeu. Só beijou o Henrique.
O beijo foi lento, explorador. As mãos do Júlio deslizaram pelo corpo do Henrique, a pele clara contrastando com suas mãos calejadas.
— Você tem certeza? — Júlio perguntou.
— Tenho — Henrique respondeu.
A cama rangeu quando os dois se deitaram. O corpo do Júlio era grande e forte, e o Henrique se sentiu pequeno sob ele.
— Vai devagar — Henrique pediu.
— Vou.
O Júlio passou os dedos pelo corpo do Henrique, descobrindo cada centímetro. O Henrique gemiam baixinho, os olhos fechados, o corpo entregue.
Quando o Júlio entrou, foi devagar, sentindo o corpo do Henrique se abrir para ele.
— Isso — Henrique gemeu. — Isso.
O Júlio metia devagar, cada estocada mais funda. A mão do Henrique apertava o braço do peão.
— Você é gostoso demais — Júlio sussurrou.
— Você também.
Os movimentos ficaram mais rápidos, mais desesperados. O som dos corpos se chocando enchia o quarto.
— Vou gozar — Júlio avisou.
— Goza — Henrique pediu.
Júlio gozou, o corpo todo tremendo. Henrique gozou também, o leite quente escorrendo pela barriga.
Os dois ficaram abraçados, a respiração pesada.
— Isso não pode acontecer de novo — Júlio disse.
— Pode sim — Henrique respondeu. — Pode acontecer todas as noites.
Júlio olhou para o Henrique, os olhos marejados.
— Eu também quero.
O que começou como uma noite virou rotina. Toda noite, depois que o patrão dormia, o Henrique descia para o barraco do Júlio. Os dois se encontravam na escuridão, o corpo do peão se misturando com o do filho do patrão.
O Júlio nunca tinha sentido algo assim. O amor, o desejo, a proibição — tudo se misturava numa sensação que ele não sabia nomear.
Uma noite, o patrão acordou e viu a luz acesa no barraco do peão. Desceu com a espingarda, pensando que era ladrão.
Quando abriu a porta, viu o filho pelado no colo do peão.
O silêncio foi ensurdecedor.
— Pai… — Henrique começou.
— Sai daí — o patrão disse, a voz gelada. — Você. Sai daí.
Henrique saiu, a roupa na mão. O pai segurou o filho pelo braço.
— Vai pro quarto. Agora.
Henrique foi.
O patrão ficou na porta do barraco, olhando para o Júlio.
— Você tá demitido — ele disse.
— Seu Eustáquio, eu…
— Sai da minha fazenda. Não quero ver tua cara nunca mais.
Júlio vestiu a roupa, pegou a mochila, e saiu. O patrão não olhou para trás.
Júlio andou até a estrada, o coração partido. Não era pelo emprego. Era pelo Henrique.
No dia seguinte, Henrique apareceu na estrada de terra, com a mochila nas costas.
— Eu vou com você — ele disse.
— O que? Seu pai…
— Meu pai não manda em mim. Eu te amo, Júlio.
Júlio sentiu os olhos marejarem.
— Eu também te amo.
Os dois se beijaram na beira da estrada, o sol se pondo ao fundo.
Não tinham dinheiro, não tinham plano. Mas tinham um ao outro.
E isso era o suficiente.
FIM.
