O céu do Rio de Janeiro tava preto feito carvão. Não era aquela chuva fininha que molha mas não atrapalha. Era chuva de verdade, daquelas que alaga rua, que faz barro escorrer ladeira abaixo, que obriga todo mundo a parar e esperar.
E era exatamente isso que o Caio tava fazendo. Parado. Esperando.
Ele tava embaixo do toldo de um bar na entrada da favela, com a camisa social branca grudada no corpo, os cabelos cacheados encharcados e o óculos de grau todo embaçado. O bar tava fechado, mas o toldo dava uma proteção. Não adiantava muito. O vento jogava a chuva pra dentro.
— Porra, que dia — ele resmungou, tentando enxugar o rosto com as mãos.
Caio era professor de história numa escola particular de Ipanema. Trinta e dois anos, corpo magro, pele clara sardenta, cabelo castanho claro cheio de cachos que ficavam ainda mais volumosos com a umidade. Usava uma barba bem feita, curta, que contornava o rosto fino. Os olhos verdes brilhavam atrás das lentes embaçadas.
Ele tinha vindo visitar um amigo na favela, mas a chuva pegou ele no caminho de volta. O amigo tinha ido embora, o ônibus não passava mais, e Caio tava preso ali, debaixo do toldo, com a bolsa cheia de provas pra corrigir e uma frustração enorme de ter que esperar a chuva passar.
Foi quando ele ouviu uma voz:
— Ô, meu chapa! Tá precisando de um guarda-chuva?
Caio virou. No portão ao lado do bar, um cara alto, magro, de pele retinta e olhos castanhos claros, tava apoiado no batente, com um sorriso largo e um guarda-chuva aberto na mão. Ele vestia uma camiseta preta de banda de rock, surrada e desbotada, e uma bermuda cáqui. Os pés estavam descalços, e ele tinha uma tatuagem de um sol no antebraço direito.
— Moço, eu acho que guarda-chuva não vai adiantar — Caio respondeu, apontando pro céu. — Isso aí é dilúvio.
O outro riu. Tinha uma risada gostosa, calma, que parecia vir de dentro.
— Eu sou o Davi. Moro ali em cima, naquela casa amarela com a porta azul. Tô vendo você aqui faz uns dez minutos, parecendo um gato molhado. Sobe aqui, toma um café, espera a chuva passar.
Caio hesitou. Ele não conhecia Davi. Mas a chuva não tava dando trégua, e o frio começava a entrar nos ossos. O corpo dele tremia levemente.
— Você é de confiança? — Caio perguntou, meio brincando.
Davi riu de novo.
— Olha, posso ser um assassino em série, mas meus cafés são ótimos. E a vista lá de cima é melhor que qualquer guarda-chuva.
Caio sorriu. Não tinha muito o que perder.
— Tá. Vai lá, me leva pra tomar esse café famoso.
Davi abriu o guarda-chuva e estendeu o braço. Caio entrou debaixo, e os dois começaram a subir a escadaria molhada. A chuva batia forte no guarda-chuva, fazendo um barulho gostoso. Davi colocou a mão no ombro de Caio, guiando ele pelos degraus escorregadios.
— Cuidado aqui, tem um degrau quebrado — Davi avisou, segurando Caio pela cintura.
O toque foi rápido, mas Caio sentiu um arrepio. A mão de Davi era quente, mesmo com a chuva fria. Ele olhou pro lado. Davi tava concentrado na escada, o rosto iluminado pelos raios que cortavam o céu.
A casa era simples. Uma porta azul, uma sala pequena com um sofá de couro velho, uma estante cheia de livros, e uma guitarra encostada na parede. O cheiro de café já tava no ar, misturado com um incenso suave.
— Senta aí — Davi disse, apontando pro sofá. — Vou pegar uma toalha pra você.
Caio sentou, olhando em volta. A casa era modesta, mas tinha personalidade. Pôsteres de bandas de rock nas paredes, um aquário pequeno com um peixe beta, e na mesa de centro, um cinzeiro de vidro e um isqueiro. Na estante, livros de poesia e alguns de filosofia.
Davi voltou com uma toalha felpuda e uma camiseta seca.
— Troca essa camisa molhada, senão você pega pneumonia — ele disse, jogando a toalha no colo de Caio. — O banheiro é ali. Depois a gente toma café.
Caio foi até o banheiro, que era pequeno mas limpo. Ele tirou a camisa social, passou a toalha no corpo, e vestiu a camiseta que Davi tinha dado. Era uma camiseta preta do Iron Maiden, um pouco grande pra ele, mas confortável. O cheiro de sabão e de Davi tava no tecido.
Quando ele voltou, Davi tava na cozinha, preparando o café. Caio se sentou no sofá e observou. Davi tinha um corpo esbelto, definido mas sem exagero, com ombros largos e cintura fina. A pele retinta brilhava levemente sob a luz da cozinha. Os braços eram longos e musculosos, e a tatuagem do sol se movia com cada gesto.
— Você é professor de quê? — Davi perguntou, sem virar, enquanto mexia o café.
— História — Caio respondeu. — Você é músico?
Davi riu, virando com as duas xícaras na mão.
— Toco guitarra num bar ali perto. Nada demais. Mas paga as contas.
Ele entregou a xícara pra Caio e sentou no outro lado do sofá. Os dois ficaram em silêncio por um momento, ouvindo a chuva bater no telhado. Era um som bom. Acolhedor.
— Seu nome é Caio, né? — Davi perguntou. — O amigo que tava na sua casa me falou.
— É. Caio. Prazer.
— Prazer, Davi. Já falei.
Eles riram. O café era forte e quente, e Caio sentiu o corpo relaxar. A chuva continuava lá fora, mas dentro da casa, o tempo parecia ter parado.
— Você mora aqui sozinho? — Caio perguntou.
— Sozinho. Minha mãe mora em Niterói, meu irmão tá em São Paulo. Sou só eu e a guitarra.
— E o peixe.
Davi sorriu.
— E o peixe. O Beto. Ele é meu melhor amigo.
Caio riu.
— Beto? Que nome de peixe é esse?
— O peixe é do meu irmão. Ele deixou quando foi embora. Eu não ia deixar o bichinho morrer, né?
Os dois ficaram se olhando. A chuva continuava caindo, o café esfriando, e o ar entre eles tava ficando diferente. Mais pesado.
Davi quebrou o silêncio.
— Você tá me olhando estranho, professor.
Caio corou. As sardas no rosto ficaram mais visíveis.
— Não tô olhando estranho. Só… você é bonito, Davi. É isso.
Davi levantou uma sobrancelha, um sorriso safado aparecendo.
— Bonito, é? E você vem pra favela, visita um amigo, fica preso na chuva, e agora me diz que sou bonito? Tá querendo alguma coisa, professor?
Caio sentiu o coração acelerar.
— Talvez.
Os olhos de Davi brilharam. Ele colocou a xícara na mesa, se levantou, e caminhou até Caio. Parou bem na frente, com Caio sentado no sofá, olhando pra ele.
— Sabe o que eu pensei quando te vi debaixo do toldo? — Davi perguntou, a voz baixa.
— O quê?
— Pensei: esse cara parece um anjo molhado. E pensei: preciso descobrir se ele é tão bonito por dentro quanto por fora.
Davi se ajoelhou na frente de Caio, colocando as mãos nos joelhos do professor. O toque era leve, mas Caio sentiu o corpo todo tremer.
— Você tá tremendo — Davi disse.
— É a chuva — Caio mentiu.
— Não é. É outra coisa.
Davi se inclinou e beijou Caio. O beijo foi lento, suave, quase tímido. Os lábios de Davi eram macios e quentes, e Caio sentiu o gosto do café e da chuva. Ele fechou os olhos e deixou o corpo se entregar.
Davi se levantou, puxou Caio pela mão.
— Vem.
Caio seguiu, sem perguntar pra onde. Davi levou ele pro quarto. Era um quarto simples: uma cama de casal com lençol azul escuro, uma estante de discos de vinil, e uma janela que dava pro céu da favela. A chuva continuava, mas a tempestade tava passando.
Davi sentou na cama e puxou Caio pra perto. Os dois ficaram se olhando, a respiração ofegante.
— Você é gay? — Caio perguntou, a voz saindo baixa.
— Sou. E você?
— Também. Mas tô há muito tempo sem… sem isso. Sem ninguém.
Davi passou a mão no rosto de Caio, os dedos tocando as sardas.
— Tá tudo bem. A gente vai devagar.
E começou a desabotoar a camiseta que Caio tava usando. A camiseta do Iron Maiden. Davi tirou com cuidado, revelando o peito magro de Caio, a pele clara salpicada de sardas até ali.
— Você é lindo — Davi sussurrou.
Caio sentiu os olhos marejarem. Não era de tristeza. Era de alívio. De ser visto, de ser desejado.
— Me beija de novo — Caio pediu.
Davi beijou. Dessa vez mais fundo, mais molhado. As mãos de Davi deslizaram pelo corpo de Caio, explorando cada centímetro. A mão do professor encontrou o peito de Davi, sentiu o coração bater forte.
Os dois se deitaram na cama. Davi ficou por cima, apoiado nos cotovelos, olhando nos olhos de Caio.
— Posso? — Davi perguntou.
— Pode.
Davi abaixou a bermuda de Caio, e depois a cueca. O pau de Caio tava duro, e Davi passou a mão, devagar, fazendo o professor gemer baixinho.
— Faz assim não, senão eu vou gozar muito rápido — Caio pediu, rindo nervoso.
— A gente tem a noite inteira, professor.
Davi desceu o corpo, passou a língua pelo peito de Caio, pelo abdômen, e finalmente chegou na virilha. Ele colocou o pau de Caio na boca com uma lentidão que era quase tortura. Cada movimento era suave, cuidadoso, como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
Caio arqueou as costas, uma mão nos cabelos de Davi, a outra apertando o lençol.
— Davi… — ele gemeu.
Davi parou e subiu de volta.
— Não quero que você goze na minha boca. Quero que você goze dentro de mim.
Ele pegou um lubrificante na gaveta do criado-mudo, passou nos dedos, e começou a se preparar. Caio observava, os olhos verdes brilhando.
— Você faz isso sempre? — Caio perguntou.
— Fazer o quê?
— Ser tão… gentil.
Davi sorriu, um sorriso meio triste.
— Não. Não faço. Mas com você é diferente. Tô sentindo uma coisa que não sentia há muito tempo.
Caio não respondeu. Só puxou Davi pra perto e o beijou.
Davi sentou no pau de Caio, guiando a entrada com a mão. Foi devagar, centímetro por centímetro, até que o pau de Caio tava inteiro dentro dele.
Os dois gemeram ao mesmo tempo.
— Porra — Caio soltou, o corpo todo tremendo.
— Tá bom? — Davi perguntou, com a respiração pesada.
— Tá melhor que bom.
Davi começou a se mover, primeiro devagar, depois mais rápido. O pau de Caio entrava e saía, e o som úmido se misturava com a chuva lá fora.
Caio colocou as mãos na cintura de Davi, guiando os movimentos. Os olhos dos dois estavam fixos, como se cada um tivesse medo de perder o outro de vista.
— Vai gozar comigo? — Davi perguntou, a voz quebrada.
— Vou — Caio respondeu.
Os movimentos ficaram mais rápidos, mais desesperados. Davi se masturbou enquanto Caio metia fundo, e os dois chegaram juntos, um gemendo o nome do outro, os corpos se contraindo, o calor dos dois se misturando.
Quando acabou, eles ficaram abraçados, a respiração pesada, o suor escorrendo.
Davi deitou no peito de Caio, ouvindo o coração do professor acelerado.
— Demorou muito pra você aparecer — Davi disse, meio brincando, meio sério.
Caio riu.
— Demorou. Mas cheguei.
A chuva parou. O sol começou a aparecer por trás das nuvens, iluminando o quarto com uma luz dourada.
— Você vai ficar? — Davi perguntou, com a voz sonolenta.
— Vou. Hoje eu não tenho prova pra corrigir.
Davi sorriu e fechou os olhos.
— Que bom, professor. Que bom.
Os dois ficaram abraçados, o corpo de um colado no outro, a pele quente, a respiração tranquila.
A favela acordava lá fora, com os primeiros sons da manhã. Mas dentro daquela casa, o tempo ainda tava suspenso.
E Caio, finalmente, não tava mais esperando.
FIM.
