CAPÍTULO 1 – A COMPRA
O mercado de escravos da cidade de Kyōto era um lugar que ninguém visitava por prazer. Ficava nos fundos da cidade velha, onde o cheiro de esgoto se misturava com o de carne podre e suor humano. As barracas de madeira encardida se alinhavam em fileiras irregulares, e os cativos ficavam expostos como mercadoria, com correntes nos pulsos e olhares vazios.
O Senhor Kaito detestava aquele lugar. Ele tinha terras, servos, uma mansão de dois andares com telhado de cerâmica, mas naquele dia, por algum motivo que ele mesmo não conseguia explicar, ele parou.
Seu cavalo relinchou enquanto ele desmontava. Os comerciantes de escravos já se aproximavam, sorrindo com dentes amarelados, mostrando suas “mercadorias” como se fossem cavalos de raça.
— Senhor Kaito! Que honra! O senhor está procurando um novo servo? Tenho um jovem forte, filho de um fazendeiro…
Kaito não respondeu. Seus olhos cinza percorriam as fileiras de cativos, a maioria deles curvados, derrotados, com os olhos fixos no chão. Ele estava prestes a ir embora quando viu o rapaz.
O jovem sentava-se no canto mais distante da barraca, com as costas retas e a cabeça erguida. Suas roupas eram rasgadas, sujas, e havia uma cicatriz discreta em seu ombro direito, visível através do tecido. Mas seus olhos — eram castanhos, amendoados, e tinham um brilho que não combinava com aquele lugar. Não era desafio explícito, mas uma centelha de resistência, uma inteligência silenciosa que dizia: “Você pode me prender, mas não pode me quebrar”.
Kaito parou. O coração deu um salto.
— Aquele ali — ele disse, apontando. — Quanto?
O comerciante, um homem baixo e gordo com um sorriso untuoso, seguiu seu olhar.
— Ah, o Ren! Excelente escolha, senhor. Ele é jovem, forte, tem apenas dezenove anos. Já trabalhou no campo, sabe lidar com animais. E é muito obediente — a última palavra foi dita com uma ênfase que Kaito percebeu ser uma mentira.
— Obediente? — Kaito repetiu, erguendo uma sobrancelha.
— Perfeitamente, senhor. Não dá trabalho. Faz o que é mandado.
Kaito olhou novamente para o rapaz. Ren o encarava de volta, sem medo, sem submissão. Havia algo naqueles olhos que o intrigava, algo que ele não conseguia nomear. Era um desafio silencioso.
— Quanto? — ele repetiu.
O comerciante citou um valor alto, esperando uma negociação. Kaito simplesmente jogou a bolsa de moedas em suas mãos.
— Ele é meu.
A negociação foi rápida. Kaito pagou e mandou o rapaz segui-lo.
— Você tem nome? — Kaito perguntou, enquanto caminhavam em direção ao portão da cidade.
— Ren, senhor.
— Quantos anos?
— Dezenove, senhor.
Kaito olhou para ele. Era bonito de uma forma que o senhor não esperava. O cabelo preto era curto e bagunçado, a pele dourada tinha um brilho natural, e a cicatriz no ombro parecia uma marca de guerra. Mesmo sujo, mesmo vestido com trapos, Ren era… intrigante.
— Você trabalhou no campo?
— Sim, senhor. Plantava arroz, cuidava dos bois, carregava sacos. O que o senhor precisar, eu faço.
— Você fala como um homem livre, não como um escravo.
Ren não respondeu. Mas um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios. Kaito sentiu um arrepio na espinha.
A mansão do Senhor Kaito ficava no alto de uma colina, cercada por campos de arroz e florestas de bambu. Era uma construção imponente, de madeira escura e telhado curvo, com jardins bem cuidados e um estábulo grande, onde Kaito mantinha seus melhores cavalos.
— Você vai cuidar dos meus estábulos — Kaito disse, enquanto abria o portão. — Vai limpar, alimentar os cavalos, e fazer o que eu mandar.
— Sim, senhor.
— E não me cause problemas.
— Não vou, senhor.
Kaito mostrou a Ren seus aposentos: um cubículo apertado nos fundos da casa, com uma cama de palha, uma manta fina e uma janela que dava para o jardim. O senhor esperava uma reclamação, mas o jovem apenas olhou em volta e assentiu.
— É melhor do que a barraca do mercado — ele disse, com um tom que Kaito não conseguiu identificar como ironia ou gratidão.
Kaito se virou para sair, mas parou na porta.
— O jantar é servido ao pôr do sol. Lave-se e vista o uniforme que está na cama.
Ele saiu, mas seus olhos voltaram uma vez para o corpo magro do escravo antes de fechar a porta. Algo naquele rapaz o inquietava. Não era apenas sua beleza, ou sua juventude. Era a forma como ele se movia, como ele falava, como ele olhava. Como se não fosse um escravo. Como se fosse um igual.
Kaito não conseguiu dormir aquela noite. O jantar foi silencioso. A comida estava boa, como sempre, mas ele mal tocou no arroz. Sua mente estava em outro lugar. No estábulo. No rapaz.
Ele se levantou, vestiu uma capa e desceu as escadas. O vento noturno era frio, mas ele não sentiu. Seus pés o levaram até o estábulo, onde uma luz tênue brilhava através das frestas.
Ren estava acordado, sentado na palha, as pernas cruzadas, os olhos fixos na lua que entrava pela janela. Ele vestia o uniforme que Kaito havia deixado — uma túnica simples de linho, que se ajustava aos seus ombros magros.
— Você não está dormindo — Kaito disse, a voz mais baixa do que ele pretendia.
Ren não se assustou. Ele parecia esperar aquela visita.
— O senhor também não.
Kaito franziu o cenho.
— Não sou eu que tenho que trabalhar amanhã.
— O senhor comprou um escravo para cuidar dos cavalos. Mas não me comprou para ser seu servo.
Kaito sentiu o sangue subir.
— O que você quer dizer?
Ren se levantou. O rapaz era alto, mais alto do que Kaito esperava. Os músculos magros se contraíam sob a túnica.
— O senhor está aqui, no meio da noite, olhando para mim como se eu fosse um mistério. O senhor não quer um empregado. O senhor quer alguém que o entenda.
Kaito deu um passo à frente.
— Você está desafiando seu dono?
— Estou observando.
Ren não recuou. Ele encarou Kaito com seus olhos castanhos, que brilhavam como brasas.
— O senhor está cansado. Não da jornada. De viver sozinho.
Kaito sentiu o coração disparar. A mão do senhor prendeu o queixo do escravo, forçando-o a olhar para cima.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que o senhor está aqui. No meio da noite. Olhando para mim.
O beijo foi bruto, desesperado. Kaito segurou Ren pelos braços e o pressionou contra a parede do estábulo. A palha rangeu sob seus pés.
Ren não resistiu. Sua boca se abriu sob o beijo do senhor, sua língua encontrando a de Kaito. O gosto era de desejo e fome.
— Você é insolente — Kaito murmurou contra seus lábios.
— E o senhor é um homem solitário.
Kaito não respondeu. A mão do senhor deslizou pela coxa do jovem, apertando a carne macia.
— Vou te ensinar quem é o dono aqui.
— Me ensina.
A promessa de uma noite que mudaria tudo estava no olhar de Ren.
Kaito sentiu o pau endurecer. O desejo que ele reprimira por anos explodia.
— Você é meu — o senhor sussurrou.
— Sim, senhor.
E, naquela noite, na penumbra do estábulo, Kaito entendeu que havia comprado mais do que um escravo.
Ele havia comprado o próprio precipício.
