A madrugada em São Paulo tem cheiro de mijo, concreto quente e promessa de roubo. Era o que o Rafael pensava enquanto subia no poste pela terceira vez naquela noite. A camiseta velha do Corinthians tava encharcada de suor e grudada no corpo, a calça jeans apertada marcava cada músculo da perna quando ele se equilibrava nos ferros. O capacete de obra na cabeça tinha uma luzinha amarelada que iluminava pouco mais que as próprias mãos calejadas.
— Porra, transformador de merda — resmungou ele, mexendo nos fios com o alicate. — Podia ter dado problema no horário comercial, mas não, tem que ser duas da manhã numa terça-feira.
A rua era deserta. Beco sem saída, daqueles que só quem mora perto conhece. Lixeiras transbordando, um cachorro magro dormindo perto de um monte de entulho e o zumbido elétrico que parecia vir de dentro do asfalto. Rafael trabalhava na empresa de manutenção há seis anos e já tava acostumado com serviço bosta em horário bosta. O que ele não tava acostumado era com o que ia acontecer quando ele descesse daquele poste.
Ele tava quase terminando de emendar os cabos quando ouviu um barulho de passos. Pisada insegura, quase arrastando. Rafael franziu a testa e desviou a lanterna do capacete na direção do som.
— Quem tá aí? — gritou, com a voz grossa de quem não quer papo.
Do escuro do beco surgiu uma figura. Um moleque de camisa social de linho, clara, que tava tão molhada de suor quanto a camiseta do Rafael, mas com um ar muito mais fresco. O cabelo castanho claro tava desarrumado, bagunçado, e os olhos verdes brilhavam com um misto de desespero e alívio quando viram a luz do capacete.
— Moço! Graças a Deus! — o cara falou, se aproximando rápido. — Meu carro quebrou lá na esquina, não sei o que fazer, não tem sinal de celular e eu…
— Calma, calma — Rafael cortou, descendo do poste com um pulo seco. Caiu no chão com um baque surdo, as botas fazendo um barulho pesado no asfalto. — Que que cê quer, patrão? Tô trabalhando.
O outro encarou ele por um segundo. Rafael sentiu o olhar do cara percorrendo o corpo dele. Os braços grossos, o peito suado que aparecia na abertura da camiseta, a tatuagem de uma faca que subia do pulso até o cotovelo. Não era um olhar de medo. Era outra coisa.
— Eu… eu só preciso de ajuda — o cara disse, a voz tremendo um pouco. — O carro morreu do nada, tô aqui há vinte minutos tentando ligar. Meu nome é Caio.
— Rafael — respondeu seco, já virando as costas pra pegar a caixa de ferramentas. — Não mexe com carro, Caio. Meu negócio é fio. Chama um guincho.
— Não tem sinal! — Caio insistiu, dando mais um passo pra perto.
Rafael sentiu o cheiro do cara. Perfume caro, daqueles que misturam madeira com limão. O suor do corpo dele tinha um cheiro diferente, mais doce. E o olhar continuava fixo no pescoço do Rafael, na veia que pulsava ali.
— Olha — Rafael disse, virando de frente. — Tô no meio de um reparo. Se eu não terminar isso, o quarteirão inteiro fica sem luz. Não posso…
Um estalo seco cortou o ar. O poste deu um clarão branco, e Rafael ouviu o chiado de um fio desencapado. Antes que ele pudesse reagir, Caio segurou o braço dele com força.
— Cuidado! — Caio gritou, puxando Rafael pra trás.
Foi o toque. A palma da mão de Caio na pele suada do braço do Rafael. A força inesperada no puxão. O calor do corpo do outro colado no dele num impulso rápido. Rafael sentiu o peito de Caio contra as suas costas, sentiu a respiração ofegante no seu ouvido.
E o pau dele endureceu na mesma hora.
— Tá doido, doido? — Rafael falou, se virando bruscamente. O rosto dos dois tava a centímetros de distância. — Mexe com fio desencapado não, porra! Cê quer morrer eletrocutado?
— Eu tentei te avisar — Caio respondeu, a voz mais baixa agora. Os olhos verdes não desviavam da boca do Rafael. — Você tava tão focado que nem viu.
O silêncio entre os dois durou segundos, mas pareceu uma eternidade. O zumbido do transformador, o latido distante de um cachorro, o som dos próprios corações batendo na boca do estômago. Rafael sentiu a mão de Caio ainda no seu braço, os dedos finos apertando a pele quente.
— Solta meu braço — Rafael ordenou, mas a voz não saiu firme. Saiu rouca.
Caio não soltou. Ele deslizou a mão lentamente, os dedos traçando um caminho pelo antebraço até o cotovelo. O toque era leve, quase uma carícia, mas tinha uma intenção clara.
— Cê não quer que eu solte — Caio sussurrou. Um sorriso pequeno, malicioso, apareceu nos lábios dele.
Rafael sentiu o sangue quente descer direto pro pau. A calça jeans ficou apertada na hora, e ele sabia que o outro tava vendo. Não tinha como esconder o volume que tava crescendo ali.
— Tá maluco, doido? — Rafael repetiu, mas dessa vez a voz falhou no meio da frase. — Aqui não é lugar… Qualquer um pode passar…
— Quem? — Caio perguntou, olhando em volta. O beco tava vazio. As janelas dos prédios em volta tinham todas as luzes apagadas. A única luz vinha do poste, que iluminava os dois. — Me diz, Rafael. Quem vai ver a gente aqui?
O nome do Rafael na boca de Caio soou como um convite. Rafael não conseguiu mais segurar. Ele agarrou o rosto de Caio com as duas mãos e colou a boca na dele.
O beijo foi bruto. Na hora. Rafael não teve paciência pra devagar. Ele mordeu o lábio inferior de Caio, puxou com os dentes, sentiu o gosto de sal e o gosto do batom que o outro ainda tinha da festa. Caio gemeu baixinho e abriu a boca, deixando a língua do Rafael entrar fundo.
A mão do Rafael largou o rosto e desceu pelo corpo do Caio. A camisa de linho tava grudada no peito, e ele sentiu o mamilo endurecido por baixo do tecido. Apertou. Caio arqueou as costas e soltou um gemido mais alto, abafado pelo beijo.
— Cê é doido, sabia? — Rafael murmurou, tirando a boca por um segundo pra respirar. Tava ofegante, os olhos escuros brilhando de tesão. — Vem com esse papo de carro quebrado, sei não…
— Quebrou mesmo — Caio riu, as mãos já no peito do Rafael, deslizando pelos músculos suados. — Mas não é por isso que tô aqui. Quando eu te vi no poste…
— Quando você me viu no poste, o que? — Rafael provocou, desabotoando a calça de Caio com uma mão só. A outra apertou a bunda do cara por cima do linho.
— Eu pensei — Caio falou, a voz trêmula enquanto sentia os dedos de Rafael entrarem nas suas cuecas. — Pensei em te dar um jeito.
Rafael riu baixo, um riso rouco de quem não tava ali pra fazer graça. Ele enfiou a mão dentro da cueca de Caio e agarrou o pau do outro. Tava duro, quente, e os dedos de Rafael fecharam em volta com força, puxando um gemido que parecia mais um grito.
— Cê quer me dar um jeito? — Rafael sussurrou no ouvido do Caio, a voz suja. — Então me mostra. Me mostra como cê ia fazer.
Caio caiu de joelhos no asfalto. Não ligou pro chão molhado, não ligou pra sujeira do beco. Ele desabotoou o jeans do Rafael com dedos trêmulos, puxou o zíper com os dentes e tirou o pau do outro pra fora.
Era grande. Mais grosso do que Caio imaginou. A cabeça rosa escura tava brilhando de pré-gozo, e ele não pensou duas vezes. Abriu a boca e colocou tudo o que conseguia pra dentro.
Rafael jogou a cabeça pra trás e soltou um gemido que ecoou no beco. A mão dele se enterrou no cabelo de Caio, puxando os fios claros com força, guiando a cabeça do outro no ritmo que ele queria.
— Isso… isso… — Rafael gemia, as palavras saindo entrecortadas. — Toma, porra. Tudo.
Caio tava com os olhos molhados, o rosto todo lambuzado de saliva. Ele engolia o pau do Rafael fundo, sentindo a cabeça batendo na garganta, o gosto salgado do pré-gozo escorrendo na língua. Uma das mãos do Caio subiu e apertou as bolas do outro, pesadas, cheias. Rafael arqueou as costas.
— Caralho, cê mama bem demais — Rafael falou, a voz mais grossa. — Mas não é isso que eu quero.
Ele puxou o Caio pelo cabelo, tirou o pau da boca do outro com um estalo molhado. Caio olhou pra cima, os olhos verdes turvos de desejo, a boca aberta, um fio de saliva ligando o lábio dele à cabeça do pau do Rafael.
— Vira — Rafael ordenou. — Vira e encosta na parede.
Caio obedeceu sem hesitar. Virou o corpo, apoiou as duas mãos na parede molhada do beco, e arqueou as costas, oferecendo a bunda pro Rafael. O cara já tinha puxado a calça de Caio pra baixo, junto com a cueca. A bunda do arquiteto era branca, lisa, e Rafael deu uma tapa que fez o som se espalhar.
— Cê gosta de levar tapa, né? — Rafael perguntou, a voz cheia de deboche. — Gosta que te tratem igual puta.
— Gosto — Caio respondeu, a voz saindo chorosa. — Faz, Rafael. Me fode.
Rafael cuspiu na mão, passou a saliva no próprio pau, e enfiou um dedo na bunda do Caio. O outro se contorceu, mas não fugiu. Empurrou o corpo pra trás, querendo mais, querendo tudo.
— Tá apertado — Rafael comentou, enfiando o segundo dedo. — Tá nervoso, é?
— Tô com tesão — Caio gemeu. — Só isso. Me fode logo, pelo amor.
Rafael não precisou ouvir mais. Tirou os dedos, alinhou a cabeça do pau na entrada do cu de Caio, e enfiou de uma vez.
O grito que Caio soltou era de dor e prazer misturados. Rafael parou por um segundo, deixando o outro se acostumar com o tamanho. Depois começou a meter. Forte. Fundo. Cada estocada fazia o corpo do Caio bater na parede.
— Isso, geme mais — Rafael exigiu, a mão apertando o pescoço do Caio por trás. — Fala que é meu, porra. Fala que essa buceta é minha.
— É tua! — Caio gritou, as lágrimas escorrendo pelo rosto, a respiração toda errada. — Tudo é teu, Rafael. Me come, me come mais…
Rafael metia sem dó. O som úmido do pau entrando no cu do Caio se misturava com os gemidos e com o zumbido do transformador. A parede do beco arranhava a mão de Caio, o asfalto sujo machucava os joelhos, mas ele não ligava. Só queria mais. Mais pau, mais força, mais de tudo.
— Olha pra mim — Rafael ordenou, puxando o cabelo do Caio pra virar a cabeça. — Quero ver sua cara enquanto te como.
Caio virou o rosto. A cara tava toda bagunçada, os olhos vermelhos de chorar, os lábios inchados de tanto beijo. Rafael se inclinou e beijou ele de novo, um beijo babado, louco, enquanto o pau continuava entrando e saindo sem parar.
— Vou gozar — Rafael sussurrou na boca do Caio. — E quero que cê goze também. Goza na mão, agora.
Caio enfiou a mão no próprio pau, que tava latejando, e começou a se masturbar enquanto Rafael enfiava o pau no fundo do cu dele. Foram três, quatro estocadas mais fortes. O corpo do Caio tremeu inteiro quando ele gozou, o leite espesso escorrendo pelos dedos e caindo no chão do beco.
Rafael sentiu o cu do Caio apertar ao redor do pau dele, e aquilo foi o bastante. Ele enterrou o pau até o fundo e gozou quente dentro do outro, o corpo todo contraído, o gemido rouco se perdendo na madrugada vazia.
Os dois ficaram parados por um longo momento. Rafael ainda estava dentro de Caio, a respiração pesada, o suor escorrendo da testa. Ele tirou o pau devagar, e viu uma gotinha de porra escorrer pela coxa do Caio.
— Porra — Rafael falou, a voz um pouco mais calma. — Cê é maluco mesmo.
Caio se virou, a calça ainda na altura do joelho, o rosto vermelho. Deu um sorriso cansado, mas cheio de tesão ainda.
— Meu carro quebrou mesmo — ele disse. — Mas agora eu acho que não vou a lugar nenhum.
Rafael riu, a primeira vez que sorria naquela noite. Ele pegou a caixa de ferramentas, fechou o zíper da calça, e esticou a mão pro Caio se levantar.
— Vem — ele disse. — Vou olhar seu carro. E depois a gente vê o que mais dá pra fazer nessa madrugada.
Caio pegou a mão estendida, e Rafael puxou ele pra perto de novo, colocando um braço em volta dos ombros do outro enquanto caminhavam pro fim do beco.
O poste ficou zumbindo sozinho, o fio desencapado finalmente consertado. Mas a energia que tinha passado entre os dois, aquela não ia se apagar tão cedo.
FIM.
